A Agricultura é considerada uma das mais antigas e importantes atividades da sociedade humana, pelo fato de que a acompanha desde os seus primórdios. Trata-se do manejo e preparo dos solos, da semeadura e plantio, do cuidado quanto ao crescimento das plantas, colheita, armazenamento e consumo. Enfim, é uma das atividades mais nobres da sociedade humana, porque permite a produção de alimentos para a sua subsistência.
A agricultura no Sul do Brasil, até as décadas de 1950 e 1960 foi desenvolvida predominantemente assentada nas pequenas propriedades rurais (minifúndios), por meio da policultura, executada pelo trabalho familiar. A partir das décadas de 1980 em diante, contudo, grande parte da agricultura regional foi absorvida e/ou capturada pelo capital agroindustrial e passou a produzir alimentos e outros produtos, entre os quais, carnes, leite e tabaco, também denominados de comodities, para atender o mercado externo – exportações.
Atualmente, são poucas as propriedades rurais que atuam com o trabalho familiar e com a policultura, e produzem produtos para sua subsistência ou com o propósito de atender o consumo local e regional.
No dia 8 de novembro de 2025, o Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGDR) da Universidade do Contestado (UNC) recebeu a visita de Marlene Prust e de sua filha Ana Karoline, para uma conversa com os mestrandos da disciplina de Dinâmicas Territorial, Econômico-organizacional e Desenvolvimento, ministrada pelo professor doutor Jairo Marchesan. Dentre os objetivos da referida conversa, cita-se como principal a explanação acerca da experiência da produção orgânica e de outras atividades de agroindústria na produção de alimentos, desenvolvidas pela Família Prust, na Comunidade Rural de Salto da Água Verde, Município de Canoinhas (SC).
Inicialmente, dona Marlene resgatou aspectos culturais, econômicos e sociais regionais, relembrando que nos anos passados, em sua juventude, a maioria dos agricultores trabalhavam no cultivo do fumo, inclusive, que seus pais eram fumicultores. Dos seus três irmãos, ela, por exemplo, passava mal ou tinha indisposição física e mental ao trabalhar nas atividades de produção do fumo, possivelmente devido à nicotina do fumo ou até mesmo porque eram utilizados agrotóxicos no processo produtivo.
Diante disso, Marlene, que gostava e se identificava com a atividade agrícola, buscou outras maneiras de produção que não fosse o tabaco. Nessa direção, pensou e optou pela produção de produtos agrícolas sem a utilização de agrotóxicos – venenos, visto que estes provocavam efeitos colaterais na sua saúde.
Marlene explicou que, inicialmente, a família fazia parte da Associação do Grupo de Pequenos Agricultores de Canoinhas e Região (Agrupar), que, nos finais de semana, especialmente aos sábados, promovia uma feira no centro da cidade de Canoinhas com a venda dos produtos agrícolas em pequenas barracas.
Relatou, ainda, que no início da produção orgânica os produtos não se desenvolviam tão bem e que não tinham uma aparência bonita. Primeiramente, cultivavam abobrinhas e rabanetes, pois outros produtos eram difíceis de serem produzidos.
Na época, em torno de 26 anos atrás, poucas pessoas falavam em produção orgânica. Contavam com o apoio técnico do senhor Aires Niejeslki, munícipe de Porto União (SC), considerado uma das referências regionais na produção de produtos orgânicos, e da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) de Canoinhas, especialmente por meio do extensionista rural, engenheiro agrônomo Daniel Uba. Dona Marlene explicou aos estudantes que preparavam os terrenos cultivados com faixas de adubação verde, verduras e, novamente, adubação verde, com o intuito de que os “bichinhos” (insetos) fossem se alimentar da adubação verde e não da produção agrícola; e, assim, sucessivamente. Explicou, ainda, que usavam esterco de gado, de galinha, de carneiro e caldos naturais como fertilizantes.
Dona Marlene relatou as dificuldades iniciais em relação às questões burocráticas para buscar a certificação, a qual foi concedida inicialmente pela Agrupar. Posteriormente, ao perceber que seria possível produzir de modo orgânico sem ter a necessidade de participar ou vincular-se à Associação, resolveu declinar de participar da mesma.
Em razão da crescente adesão ou demandas da sociedade pela produção, relatou que seu marido, que na época trabalhava em uma indústria, desligou-se do trabalho de funcionário da empresa para ser produtor de alimentos e comercializá-los nas casas e na feira aos sábados. Ainda, segundo os relatos de Marlene, houve necessidade de contratar novos trabalhadores para a função, constituir uma marca e registrar Firma.
Assim, foi criada a marca “Prust Alimentos Saudáveis”! Diante disso, aumentou a responsabilidade em relação ao cuidado com a qualidade dos produtos, porque, afinal, segundo Marlene, “leva o nome da família”! Além da produção de hortifrutigranjeiros, Marlene relatou que a família também produz geleias de frutas. Para esse produto, houve a necessidade de legalizar, criar os rótulos e operar com demais procedimentos técnicos, incluindo a licença para comercializar nos mercados regionais, e tiveram, novamente, o apoio dos técnicos da Epagri.
Dona Marlene contou que seu irmão, Elcio, na época, cursava o Ensino Superior, sendo fundamental na organização administrativa do novo empreendimento.
Segundo ela, até o ano de 2000 os agricultores organizavam as feirinhas por conta própria, contudo, posteriormente, com o apoio da Prefeitura Municipal de Canoinhas, foi construído o Mercado Público, considerado um espaço adequado para a comercialização dos produtos, proporcionando abrigo, segurança e maior facilidade para a exposição dos produtos, bem como, melhor atendimento aos consumidores.
No decorrer das falas, reiteradamente Marlene mencionava: “A gente sempre cuidou muito da qualidade e da variedade” [sic]. A feira tem que ser diferente, exemplo com variedade de feijão e que cozinhe bem! Tomate, tiramos sementes do tomate para depois fazer as mudas e replantar. Os tomates tem gosto, “igual aquele tomate que a gente comia na casa da vó, é doce…” [sic]. Atualmente contamos com 17 abrigos de produção de tomates, e entre os abrigos tem um rio, que proporciona água para a irrigação da plantação. Na verdade, tratava-se de uma grota, considerado o “pior terreno”, o qual foi recuperado e adaptado com irrigação. É uma vertente; tem um banhado. Segundo ela, era o pior lugar para plantar, seu pai tentou viabilizar a drenagem, e daí surgiu a ideia de plantar agrião da água, então foi perfeito. Atualmente, o agrião é produzido em praticamente o ano inteiro, porque é na água corrente, o que garante um sabor diferente, mais gostoso e macio. Outras produções realizadas no sítio incluem aipim, alface, beterraba, cenoura, abobrinhas, etc.
Sobre o cultivo do aipim, dona Marlene explicou que possuem uma câmara fria, porque a colheita acontece de março a setembro: eles colhem, descascam e congelam (porque, conforme a época que for colhido, não cozinha bem, e se congelado não perde a qualidade). É um produto que está disponível para venda em quase todos os mercados da região.
No início das atividades com a produção de orgânicos, o trabalho era todo manual. Segundo Marlene, neste período, recebeu a visita de uma bióloga que foi fazer uma pesquisa. A referida pesquisadora constatou que não encontrava minhocas no solo, e a minhoca é um dos importantes bioindicadores da qualidade do solo!
O solo é elemento vivo, por isso, a importância de não perder nada do solo. Isso é um dos princípios da agricultura regenerativa: solo protegido. Outro aspecto é que existem caldas para combater as “praguinhas” ou insetos. Atualmente, no sítio de Marlene sente-se o cheiro da terra, encontra-se minhocas no solo, e quando se mexe manualmente na terra, esta se debulha na mão. Isto significa que é terra boa! Além disso, a terra e a produção estão em equilíbrio. “O “bicho” – inseto vem quando a planta está desregulada ou o solo não é bom. Se a terra está boa, a planta nasce saudável”.
A família compreende que na feira é necessário ter o máximo de variedades de produtos e, por isso, há a necessidade de plantar de tudo (ter variedade) e considerar produtos de época.
Atualmente, o empreendimento produtivo rural oferece mais de 30 tipos de produtos. A feira acontece todos os sábados, porém, já começa a organizar os trabalhos nas quintas-feiras. Por exemplo, alguns produtos como feijão escolhido, no início da semana; batatinha, já pode arrancar antes, lavar e pesar. Todos passaram a ser embalados, principalmente depois da pandemia, mas também pelo fato de que as pessoas colocam a mão nos produtos, apertam e, às vezes, os danificam. Do outro lado dos abrigos, muita chuva alaga tudo.
Quando sobra produtos na feira, estes são doados ao hospital local, o que representa uma bela atitude de empatia e gentileza da família Prust.
Muitos consumidores participam do Programa Moeda Ouro Verde[1], que permite a troca das moedas pelos produtos da feira e, a cada 15 dias, o recolhimento das moedas para o pagamento das compras.
Marlene defende que não se pode parar no tempo, e que é importante ter ideias novas, explicando que havia produtos que o pessoal não conhecia, por exemplo, o alho poró.
Segundo ela, “desde a época que começamos com a produção de produtos orgânicos, dificilmente ficamos doentes, nem mesmo contraímos uma gripe!”.
Marlene contou que recentemente participou de um curso, e que aprendeu a fazer geleia de abacaxi com pimenta. Segundo ela, existem tipos de geleias nas quais se encontra pedaços de frutas. Todas as geleias foram criadas pela família, com a utilização de um fogão industrial, com seis bocas grandes, até encontrar o ponto da geleia. Explicou que as geleias têm crescente expansão comercial, inclusive a nível nacional; afinal, são vendidas em seis Estados brasileiros.
A metodologia de trabalho da família é dividida: o irmão Elcio Prust atua na Agroindústria, cuida da administração e vendas, e Marlene Prust é responsável pelas verduras e geleias.
Sobre as vendas, quando começaram, não existia internet. Por isso, utilizavam panfletos que eram distribuídas nas ruas. Hoje em dia, recebem muitas escolas para visitação no sítio, e a filha Ana Karoline já cuida da internet e do marketing com fotos reais (não foto ilustrativa).
Segundo Marlene, no início, os maiores frequentadores da feira eram as pessoas idosas, contudo, atualmente, mais jovens se fazem presentes; tem de tudo em todos os horários.
Nesse contexto, observa-se que a produção orgânica é possível, e ressalta-se os benefícios desta ao meio ambiente e à saúde, tanto para os produtores quanto para os consumidores, incluindo a preservação da biodiversidade e a redução da contaminação de recursos hídricos e do solo.
Os produtos orgânicos possuem maior valor agregado, conforme afirmado na apresentação de Marlene, além da satisfação da família na produção orgânica. Segundo ela, o aumento da procura pelos alimentos saudáveis, sem a utilização de agrotóxicos, demonstra que é possível produzir e oferecer produtos em benefício da qualidade de vida.
Neste sentido, é preciso valorizar este perfil de agricultores que buscam alternativas e qualidade na produção e comercialização de alimentos saudáveis ofertados à sociedade, pois vislumbra-se produtores e consumidores cada vez mais conscientes e exigentes pela qualidade de vida e dos demais benefícios que podem ser proporcionados ao meio ambiente pelos produtos orgânicos.
[1] O município de Canoinhas instituiu o Programa Moeda Ouro Verde, por meio da Lei Municipal 6.596/2021, regulamentado pelo Decreto nº 85/2023, através do programa a população pode trocar resíduos sólidos urbanos recicláveis, nos pontos de coletas pré-definidos pelo ente público, por créditos financeiros para a compra de insumos no Mercado Público Municipal.
Por:
Zenici Dreher Herbst[1]
Amanda Slabadack[2]
Barbara Ribeiro da Silva[3]
Cleverson Kalil de Souza[4]
Fernanda Garcia Sardanha[5]
Jocondo Santer[6]
Leila Aparecida Grein[7]
Wilian Dums[8]
Jairo Marchesan[9]
[1] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Universidade do Contestado (UNC). E-mail: zenicidreher@hotmail.com. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7819-3143.
[2] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Universidade do Contestado (UNC). E-mail: amanda_slabadack@hotmail.com
[3] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Universidade do Contestado (UNC). barbarabrs@gmail.com
[4] Mestrando Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Universidade do Contestado (UNC). ORCID https://orcid.org/0009-0007-7382-2418 E-mail: cleversonkalil@gmail.com
[5] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Universidade do Contestado (UNC). E-mail: fersardanha@yahoo.com.br
[6] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, Universidade do Contestado (UNC). E-mail: E-mail: jocondosanter@gmail.com ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9856-9841.
[7] Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional; Universidade do Contestado (UNC). E-mail: leilaapgeografia@gmail.com
[8] Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional; Membro do Núcleo de Pesquisa em Saúde Coletiva e Meio Ambiente (Nupesc/UNC); Universidade do Contestado (UNC). E-mail: dumswillian54@gmail.com
[9] Docente do Programa de Pós-Graduação (Mestrado e Doutorado) em Desenvolvimento Regional, Universidade do Contestado (UNC). E-mail: jairo@unc.br


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