Convocado pelo rádio após quase perder a chance, o canoinhense trocou o trabalho pesado na lenha por quase 30 anos de dedicação à Polícia Militar
Dando continuidade à série de entrevistas com veteranos do 3º Batalhão de Polícia Militar (3º BPM), o décimo quarto entrevistado é o cabo veterano Pedro Vieira, personagem de uma trajetória profundamente ligada ao batalhão, onde serviu por décadas e desempenhou as mais diversas funções.
Pedro Vieira é filho de Thelemaco Vieira e Arminda Forbek. Nasceu em Canoinhas, na localidade do Matão. Foi aí também que fez seu curso primário, na antiga escola isolada, e onde passou sua adolescência e juventude.
Ao completar 18 anos, foi convocado para o serviço militar obrigatório. Isso foi entre os anos de 1961 e 1962. Serviu no antigo 2º Batalhão Ferroviário, então sediado em Rio Negro (PR). Hoje, esse batalhão está em Araguari (MG).
CORREIO DO NORTE (SC), a. 15, n. 637. Canoinhas, 22 abr. 1961
O Batalhão Ferroviário foi o responsável pela construção da ferrovia Tronco Principal Sul, que, em Santa Catarina, liga Mafra (SC) a Lages (SC). “Quando eu servi, trabalhei na construção do Viaduto nº 18, que dizem ter 1.200 metros de comprimento”.

Militares durante a construção da Tronco Principal Sul – Acervo da Prefeitura de Santa Cecília
Os dormentes ainda eram assentados diretamente sobre o solo, sem o empedramento. Anos depois, isso passou a ser feito. “Eu lembro do serviço de descarregar trilhos e dormentes”. No período, o acampamento geral dos militares era na estação Taiti, que fica em Ponte Alta do Norte (SC).
No mesmo ano de 1962, o veterano Pedro Vieira concluiu o serviço militar obrigatório e voltou a residir com a família. “A minha família morava na estrada que liga Taunay a Matão, há mais ou menos um quilômetro da antiga escolinha do Matão”.
Após retornar do Exército, o seu trabalho era cortar lenha no mato para vendê-la à ferrovia. Recorda-se que “os trens eram ainda movidos à lenha, as famosas marias fumaças”. O serviço consistia apenas no corte, pois “era outra pessoa que levava a lenha até a estação de Taunay para vendê-la”. Era um serviço manual e extremamente desgastante.
Rememorando aquele período, afirma: “o meu sonho era ser ferroviário. Em 1963, mais ou menos, eu soube que a ferrovia estava contratando gente para fazer o empedramento dos trilhos, que ainda eram assentados no chão”. Em vista da oportunidade, o entrevistado foi até Três Barras, onde ficava o escritório da empresa.

Estação de Taunay. Fonte: Publicação no grupo do Facebook Fotos Antigas Três Barras e Região
Ao chegar a Três Barras, informaram-no de que seriam necessários alguns documentos, dentre eles a carteira de trabalho. Uma vez providenciada a documentação, o veterano retornou ao escritório, onde disseram: “você não é de sorte, a contratação encerrou ontem! Assim que você saiu do escritório, veio a ordem de Curitiba para o encerramento”. Desapontado, retornou ao Matão, continuando a “lidar com lenha”.
No ano de 1965, foi informado por seu concunhado, Célio Culing, de que estavam abertas vagas para inclusão na Polícia Militar. No período, era bastante comum ocorrências de muita gravidade, especialmente nas serras, onde aconteciam muitos homicídios. Isso gerava um grande receio da profissão.
Por essa razão, respondeu a Célio: “eu não vou dar meu couro pra essa turma aí nas serras!”, ao que foi retorquido: “mas quem está no inferno, não custa abraçar o diabo!”. Essa era uma alusão à vida difícil que se tinha: sem dinheiro e com um trabalho extremamente pesado no corte de lenha.
Essa conversa fez o entrevistado refletir e concordou em ir até o 3º BPM para fazer a inscrição. No quartel, foram feitos vários testes. Foi aplicado o psicotécnico e provas de diversas disciplinas, a exemplo de Português.
Após os testes, os candidatos foram colocados em forma e receberam a ordem: “os que forem chamados podem sair, os demais aguardem para receber instruções”. Com alegria, relembra, “eu fui um dos que ficou”.
Na sequência, receberam a seguinte orientação: “vocês devem ouvir o programa chamado Utilidade Pública, da rádio Canoinhas, pois lá será informada a data de apresentação para os outros testes”. Nesse período, embora casado, morava com seu pai que não gostava de ouvir rádio.
Recorda-se que: “certo dia eu estava ouvindo o rádio com o maior cuidado. Assim que iniciou o programa Utilidade Pública, meu pai entrou no quarto e eu tive que desligar”. Pouco tempo depois, Célio o procurou, perguntando: “por que você não foi fazer os testes no quartel? Foi o único que faltou”. Depois da notícia, foi a pé até o quartel, percorrendo aproximadamente 12 quilômetros.
No quartel, foi atendido pelo sargento Braguinha que o recebeu muito bem e disse: “se a documentação ainda não foi enviada a Florianópolis, vai ser possível fazer o teste”. Para sua felicidade, a documentação ainda estava em Canoinhas. O próprio sargento Braguinha aplicou o teste físico que foi realizado na antiga quadra de esportes, onde atualmente está construído o fórum da comarca.
Obteve êxito nos testes, então o sargento orientou: “aguarde que logo você será chamado, isso ocorrerá pelo programa Utilidade Pública”. Dessa vez, o entrevistado conseguiu ouvir a notícia de sua convocação e, assim, ingressou na Polícia Militar em 19 de maio de 1965.
Ao ingressar, não precisou fazer curso de formação, por já ser reservista de 1ª categoria do Exército Brasileiro. Um de seus colegas era Deonito Daichmann, in memoriam, que pouco tempo depois, em 1967, fez o curso de sargento, chegando a subtenente.
Da turma recém incluída, muitos foram transferidos para servir na companhia de Curitibanos, pertencente ao 3ºBPM na época. Dentre eles, o próprio entrevistado, “o Daichmann, o Jesse e até mesmo o sargento Braguinha”. O veterano relembra que viajou sozinho e a viagem foi feita de carona, “em Monte Castelo, eu pousei na casa de um conhecido, Dale Lisboa, no dia seguinte consegui chegar a Curitibanos”.
A impressão inicial não foi muito boa. Estando à paisana (em trajes civis), uma das primeiras cenas que viu foi a dois sujeitos mal encarados que viram um policial fardado e comentaram: “e lá vai o meganha!”. No entanto, no período em que lá trabalhou, não passou por nenhuma intercorrência.
Pouco tempo depois, sua esposa e seu filho também mudaram-se para lá, mas “a gente não conseguia se acostumar. Minha mãe era amiga da esposa do coronel Roque de Oliveira Mendes, comandante do batalhão, e por intermédio da minha mãe, consegui transferência para Canoinhas”.
Na viagem de retorno, feita de ônibus, um fato pitoresco ocorreu. Na companhia do entrevistado, estava seu amigo Daichmann, que também havia sido transferido para Canoinhas. “Eu tinha um despertador e durante a viagem inteira fomos ouvindo o ‘tec-tec-tec’. Por muitos anos, quando me encontrava com o sub Daichmann, a gente lembrava da história e se divertia bastante”.
Após retornar a Canoinhas, trabalhou na sede do batalhão o restante de sua carreira de quase trinta anos. A área abrangida pelo 3ºBPM era extensa. Para se ter uma ideia, até mesmo Joinville era um destacamento que pertencia à Unidade. As atividades desempenhadas no quartel também eram bastante variadas. Recorda-se que existia armazém, enfermaria, barbearia, rancho, açougue, até mesmo charque era feito no quartel.
O entrevistado exerceu atividades nos mais variados setores. Atuou em funções como: patrulha, almoxarifado, armazém, rancho. Foi também estafeta, que era o policial responsável por levar mensagens do quartel aos demais órgãos. Relembra que “houve um período que o setor de telégrafo do quartel recebia informações de diversos órgãos do estado. Era como se fosse uma central de mensagens oficiais. O estafeta era quem saía do quartel para entregá-las”.
Dentre as ocorrências atendidas, uma das que mais o marcou foi um assalto a um casal de idosos, em Papanduva, por volta de 1970. Três assaltantes haviam praticado o crime. Após o assalto, fugiram com o carro das vítimas sentido Curitibanos. Foi mobilizado um grande contingente de policiais. Recorda que “até a imprensa se mobilizou para auxiliar a polícia com informações”.
Depois de uma grande perseguição, os assaltantes foram abordados entre Curitibanos e Rio do Sul, havendo troca de tiros que resultou na morte deles. O entrevistado lembra que no período “Curitibanos e Rio do Sul eram companhias pertencentes ao 3º BPM”.
Outro fato marcante foi o policiamento que realizou durante a inauguração da ponte que liga Três Barras ao município de São Mateus do Sul (PR). Isso ocorreu em 26 de outubro de 1969. Recorda-se que “vieram os dois governadores: do Paraná e de Santa Catarina”. A ponte representava um avanço, pois até aquele momento a travessia do rio era feita de balsa.
setembro de 1969



Hoje, passados tantos anos, o veterano Pedro Vieira relembra com saudade o tempo em que esteve na ativa. Guarda na memória os amigos, as histórias vividas, os desafios enfrentados e as conquistas alcançadas ao longo da carreira.
Se, na juventude, sonhava em ser ferroviário, foi na Polícia Militar de Santa Catarina que se realizou, construindo uma carreira da qual se orgulha. O 3º BPM faz parte dessa história, assim como Pedro Vieira integra a história do batalhão.
*Por capitão PM Diego Gudas


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