Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015 cerca de 4,4% da população global vivia com depressão, totalizando aproximadamente 322 milhões de pessoas. Naquele período, a condição era mais comum entre as mulheres, com uma taxa de prevalência de 5,1%, enquanto entre os homens o índice era de 3,6%. As variações também se manifestam entre as faixas etárias, atingindo seu pico na idade adulta avançada, com 7,5% entre mulheres de 55 a 74 anos e, nesta mesma faixa, mais de 5,5% entre os homens.
Os sintomas da depressão vão além da tristeza passageira. A doença se caracteriza pela perda de interesse ou prazer para a realização das atividades cotidianas, sentimentos de culpa, baixa autoestima, distúrbios no sono e alterações no apetite, dentre outras. Além disso, compromete significativamente a funcionalidade física e psiquica do indivíduo e pode se manifestar de forma episódica ou persistente. Entre os principais diagnósticos estão o transtorno depressivo maior, referente à fase ativa da doença, e a distimia, uma forma crônica e de longa duração.
Nos grandes centros urbanos, principalmente, o estilo de vida acelerado, a insegurança e outros aspectos têm se mostrado fator de risco adicional para o desenvolvimento de transtornos depressivos. A pressão por produtividade, as longas jornadas de trabalho, a constante sensação de urgência, dentre outros aspectos, geram um ambiente propício ao estresse crônico, e esse cenário pode afetar diretamente a saúde mental da população urbana.
Ademais, fatores ambientais como poluição sonora, visual e do ar também exercem influência negativa sobre o bem-estar psicológico. A rápida e, muitas vezes, desordenada expansão urbana, marcada pelo crescimento de edifícios e a consequente redução de áreas verdes, contribui para um ambiente monótono, estéril, menos acolhedor e mais desgastante para o ser humano.
Essa transformação do espaço urbano interfere, inclusive, no ciclo circadiano – o “relógio biológico” –, que regula o sono, fato que agrava ainda mais os impactos na saúde mental. A exposição contínua a estímulos luminosos artificiais, aliada à diminuição, senão ausência do contato com espaços físicos naturais (solos, água, flora e fauna), podem gerar distúrbios no sono e aumentar a vulnerabilidade à depressão.
Diante desse panorama, refletir sobre como as cidades foram, são e estão sendo organizadas e como isso impacta na vida e no bem-estar das pessoas se torna fundamental. A urbanização, quando não planejada de forma equilibrada ou mais harmoniosa, pode intensificar o isolamento social, aumentar o estresse e reduzir o contato com a natureza, fatores estes diretamente ligados à piora da saúde mental. Por isso, é necessário incluir a saúde mental como um dos aspectos do planejamento urbano, considerando que o espaço físico influencia diretamente no estado emocional e psicológico da população.
Neste sentido, o investimento em políticas públicas que promovam o acesso a áreas verdes, incentivem a mobilidade ativa (por exemplo, caminhadas e andar de bicicleta, etc.), fortaleçam os vínculos comunitários e proporcionem infraestrutura urbana mais humana e acessível representa um caminho possível para mitigar os efeitos negativos da vida nas grandes cidades. Além disso, a integração de profissionais de saúde mental às estratégias de planejamento e desenvolvimento urbano pode, igualmente, ser uma das formas eficazes de construir cidades mais inclusivas, saudáveis, sustentáveis, resilientes e acolhedoras. Afinal, pensar o urbano é, também, cuidar das pessoas que nele vivem ou por ele circulam.
Autores
Willian Dums: Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional; Membro do Núcleo de Pesquisa em Saúde Coletiva e Meio Ambiente (NUPESC/UNC); Universidade do Contestado (UNC). E-mail: dumswillian54@gmail.com
Zenici Dreher Herbst: Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional; Universidade do Contestado (UNC). E-mail: zenicidreher@hotmail.com
Cleverson Kalil de Souza: Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional; Universidade do Contestado (UNC). E-mail: cleversonkalil@gmail.com
Jairo Marchesan: Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional e Engenharia Civil, Sanitária e Ambiental (UNC); Líder do Grupo de Pesquisa em Meio Ambiente e Sociedade (MAS/UNC) Universidade do Contestado (UNC). E-mail: jairo@unc.br


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