Escrito por:
Jonatas Alves
Cursando Licenciatura em Técnologia Educacional na Universidade do Contestado
A democracia moderna não nasce de um acordo religioso nem de uma revelação divina; ela nasce de uma ruptura. Surge no momento em que a humanidade decide que nenhuma verdade transcendental, nenhum livro sagrado e nenhuma autoridade espiritual pode servir de fundamento último para o poder político. A democracia só existe quando o Estado deixa de responder a Deus e passa a responder exclusivamente às pessoas, todas elas, em igualdade radical. É por isso que o Estado laico não é um detalhe administrativo, mas a condição básica de possibilidade da própria democracia. Onde o poder se ancora em verdades reveladas, a cidadania deixa de ser universal e passa a ser hierarquizada.
O cristianismo, entendido não como experiência íntima de fé, mas como doutrina normativa e projeto moral universal, entra em choque direto com essa premissa. Ser cristão, no sentido estrito, é aceitar que existe uma verdade objetiva sobre o mundo, o ser humano, a moral e o destino final da vida, verdade essa revelada por Deus, registrada na Bíblia e superior a qualquer deliberação humana. Essa verdade não é negociável, não é revisável e não depende de consenso. Ela simplesmente é. A democracia, ao contrário, só funciona porque nenhuma verdade é definitiva, porque todas as normas podem ser debatidas, revistas e até revogadas. Onde uma verdade se declara absoluta, o debate se encerra antes de começar.
O conflito não é acidental, é estrutural. A democracia exige que o espaço público seja governado por razões acessíveis a qualquer cidadão, independentemente de crença, fé ou tradição espiritual. Já o cristianismo fundamenta sua moral em uma revelação que só faz sentido para quem crê. Quando essa moral tenta se converter em lei, ela deixa de ser orientação espiritual e passa a ser imposição política. Nesse momento, cidadãos que não compartilham da fé cristã tornam-se, automaticamente, cidadãos de segunda classe, porque vivem sob normas justificadas por algo que eles não reconhecem como legítimo. Isso rompe a igualdade democrática de maneira direta.
O Estado laico, por essa razão, não é neutro por conveniência, mas por necessidade. Ele não nega a religião; ele nega o privilégio religioso. O problema é que o cristianismo, por definição, não se entende como “mais uma visão de mundo”. Ele se apresenta como verdade universal, válida inclusive para quem a rejeita. Essa pretensão universal transforma a tolerância democrática em algo provisório, condicionado e frágil. Enquanto o cristianismo não detém poder suficiente, ele aceita a pluralidade; quando se aproxima do poder, passa a tentar moldar o Estado à sua moral. A história não é exceção aqui, é padrão.
A moral democrática se baseia na autonomia individual, no consentimento e na igualdade de direitos. Ela parte do princípio de que ninguém precisa ser moralmente aprovado para ser titular de direitos. A moral cristã opera de forma oposta. Ela se baseia na obediência, na submissão a uma autoridade transcendente, na culpa e na promessa de punição ou recompensa. Ela classifica comportamentos, identidades e modos de vida como corretos ou pecaminosos, aceitáveis ou abomináveis. Mesmo quando tenta se apresentar de forma branda, a estrutura permanece a mesma: existe um padrão moral objetivo e quem dele se afasta está em erro. Traduzida para o campo político, essa lógica é profundamente excludente.
Não é coincidência que discursos cristãos no espaço público frequentemente tentem separar pessoas em categorias morais: famílias “de verdade” e famílias desviantes, vidas dignas e vidas pecaminosas, cidadãos “do bem” e cidadãos em falta. A democracia, por definição, rejeita esse tipo de classificação. Ela não pergunta quem é moralmente correto, mas quem é titular de direitos. O cristianismo, enquanto sistema moral, faz exatamente a pergunta inversa, e isso o torna incompatível com a lógica democrática sempre que tenta ultrapassar os limites da fé privada.
Historicamente, o cristianismo só produz algum valor social quando está afastado do poder político. Toda vez que se aproxima do Estado, passa a regular corpos, controlar sexualidades, silenciar dissidências e transformar discordância em pecado. Isso não é um desvio ocasional, mas uma consequência lógica de uma doutrina que afirma possuir respostas definitivas sobre a vida, o sofrimento, o desejo e a morte. A democracia, por sua vez, só se sustenta enquanto nenhuma dessas respostas é considerada intocável.
É importante deixar claro que pessoas cristãs, enquanto indivíduos, têm lugar pleno na democracia. Elas têm direito à fé, ao culto e à expressão religiosa, como qualquer outra pessoa. O que não tem lugar em um Estado democrático é o cristianismo enquanto fundamento normativo da política, a Bíblia como referência legislativa, a moral cristã como critério de cidadania ou a fé como argumento político suficiente em si mesmo. A democracia exige que todas as crenças aceitem ser apenas crenças, sem privilégios. O cristianismo, por definição interna, resiste a essa redução.
No ponto mais incômodo do debate está uma verdade que muitos preferem evitar: a democracia não precisa do cristianismo para existir, mas o cristianismo, para existir plenamente como verdade universal, precisa negar os fundamentos da democracia. Quando cristãos aceitam o Estado laico, aceitam também limitar sua fé ao espaço privado ou simbólico, e isso já é, do ponto de vista teológico, uma concessão profunda. Quando recusam essa limitação, tornam-se uma ameaça estrutural ao pluralismo democrático.
Não se trata de ódio, censura ou perseguição religiosa. Trata-se de reconhecer um conflito real e irreconciliável. Nenhuma doutrina que se acredita portadora da verdade absoluta pode conviver sem tensão permanente com um regime baseado na igualdade radical entre consciências humanas. A democracia começa exatamente onde a fé termina como norma pública. E é por isso que o cristianismo, enquanto projeto político-moral, não cabe dentro dela.
Escrito por:
Jonatas Alves
Cursando Licenciatura em Técnologia Educacional na Universidade do Contestado


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