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A Influência da Luz Solar no Relógio Biológico Humano

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Ao longo da história da sociedade humana a iluminação sempre foi importante e, às vezes, até determinante na vida cotidiana e no desenvolvimento de atividades econômicas, sociais, culturais e outras. Desde o tempo do domínio do fogo, pelos primeiros hominídeos, até o uso de velas e lâmpadas rudimentares de pedra ou cerâmica, em que se queimava gordura animal, a luz disponível era fraca, instável e limitada a pequenos ambientes.

 

Nas cavernas pré-históricas da França e da Espanha, essas fontes iluminavam apenas pequenas áreas das paredes, influenciando a percepção das pinturas rupestres e, possivelmente, a experiência simbólica desses primeiros grupos humanos (De Beaune; White, 1993). A partir da Revolução Industrial, a relação dos seres humanos com a luz mudou radicalmente. A invenção das lâmpadas incandescentes por Swan e Edison no final do século 19 tornou possível gerar luz contínua, intensa e acessível, acompanhada pela rápida expansão da rede elétrica.

 

Esse avanço não apenas transformou a vida urbana e industrial, mas, também, mudou a forma como os humanos se relacionam com os ciclos naturais de luz e escuridão. Atualmente, convivemos com lâmpadas e dispositivos digitais que emitem grandes quantidades de luz, especialmente na faixa azul, capaz de influenciar diretamente os ritmos biológicos. A luz visível é formada por várias cores, e cada cor corresponde a um comprimento de onda diferente, sendo a luz azul relevante para a regulação do ritmo circadiano e no impacto sobre a saúde ocular.

 

A luz azul artificial (LEDs e telas), contudo, pode imitar a luz do dia e confundir o relógio biológico quando usada à noite. O ritmo circadiano é um ciclo biológico de aproximadamente 24 horas, que regula funções vitais como sono, secreção hormonal, temperatura corporal, metabolismo e níveis de alerta. Sua sincronização depende da alternância natural entre luz e escuridão. Durante o dia, a exposição à luz natural envia ao cérebro a mensagem de vigília, inibindo a produção de melatonina. À noite, a ausência de luz permite que a glândula pineal produza esse hormônio, essencial para induzir o sono e regular processos metabólicos.

 

A falta de luz durante o dia ou o excesso de luz artificial à noite podem reduzir a produção de melatonina, prejudicando o sono, o humor e o metabolismo. O núcleo supraquiasmático, localizado no hipotálamo, funciona como o relógio biológico central. Ele coordena os ciclos de sono e a produção hormonal, e também envia sinais para órgãos como coração, pâncreas, fígado, tireoide e glândula pineal, proporcionando que cada órgão realize suas funções no momento certo. Esse sistema age como um maestro, regendo os diferentes instrumentos de uma orquestra biológica, mantendo o corpo sincronizado com o ambiente. Os efeitos da luz sobre o ritmo circadiano tornam-se ainda mais evidentes em situações extremas.

 

Nas regiões polares, por exemplo, no inverno, não há praticamente nenhuma luz natural, o que dificulta a sincronização biológica. Nessas condições, surgem alterações do sono, fadiga constante, desequilíbrios hormonais, resultado da alteração crônica do ritmo circadiano, que pode contribuir para o estresse e está associada a maior risco de demência e de doenças cardiovasculares. Esses efeitos evidenciam a importância da luz para a saúde humana e a delicada relação entre ritmicidade biológica e ambiente.

 

No contexto urbano moderno, muitas vezes, a baixa exposição à luz natural durante o dia em ambientes fechados, aliada ao uso prolongado de telas luminosas à noite, como celulares, televisão, tablets e outros, acaba desregulando o ritmo circadiano. Essa combinação reduz os níveis de dopamina e melatonina, prejudicando o sono e interferindo nos sinais que controlam o crescimento ocular, contribuindo para o aumento do tamanho do olho (comprimento axial) e elevando o risco de miopia, sobretudo em crianças.

 

 

Para enfrentar esse problema, países orientais com alta prevalência de miopia, como China, Taiwan e Singapura, adotaram políticas públicas que incentivam atividades ao ar livre para as crianças, promovendo mais tempo de brincadeiras sob a luz solar. Segundo projeções, essa “pandemia da miopia” tende a se intensificar globalmente nas próximas décadas. Quando elevada, a miopia aumenta a probabilidade de complicações oculares graves ao longo da vida, incluindo descolamento de retina, catarata e glaucoma.

 

 

Durante milênios, o nascer e o pôr do sol forneceram sinais temporais estáveis que regulavam processos fisiológicos e biológicos essenciais à sobrevivência humana, no entanto, a partir da modernidade, com a introdução da iluminação artificial, esse equilíbrio foi afetado profundamente. Compreender a relação entre luz natural, ritmo circadiano e saúde é fundamental, não apenas para prevenir distúrbios mentais e físicos, mas, também, para conhecer e saber como lidar com os desafios emergentes, dentre os quais, a crescente incidência de miopia em crianças.

 

 

Autores

Nora León Rodríguez                                                                                                                             Doutoranda em Desenvolvimento Regional. Universidade do Contestado (UNC), Canoinhas/SC, Brasil. Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina (Fapesc). E-mail: nora@unc.br

 

Jairo Marchesan

Doutor em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina. Docente dos Programas de Mestrado e Doutorado em Desenvolvimento Regional e do Programa de Mestrado Profissional em Engenharia Civil, Sanitária e Ambiental da Universidade do Contestado UNC, Canoinhas/SC, Brasil. E-mail: jairo@unc.br

 

Referências

ALFREDSSON, L.; ARMSTRONG, B. K.; BUTTERFIELD, D. A. Insufficient sun exposure has become a real public health problem. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 17, n. 14, p. 5.014, 2020. DOI: 10.3390/ijerph17145014.

ARENDT, J. Biological rhythms during residence in polar regions. Chronobiology International, v. 29, n. 4, p. 379-394, 2012. DOI: 10.3109/07420528.2012.668997.

BONMATI-CARRION, M. A. et al. Protecting the melatonin rhythm through circadian healthy light exposure. International Journal of Molecular Sciences, v. 15, n. 12, p. 23.448-23.500, 2014. DOI: 10.3390/ijms151223448.

DE BEAUNE, Sophie A.; WHITE, Randall. Las lámparas de la Edad de Hielo. Investigación y Ciencia, n. 200, p. 54-59, 1993.

LI, L.; YU, Y.; ZHUANG, Z.; WU, Q.; LIN, S.; HU, J. Circadian rhythm, ipRGCs, and dopamine signalling in myopia. Graefe’s Archive for Clinical and Experimental Ophthalmology, v. 262, n. 3, p. 983-990, 2024. DOI: 10.1007/s00417-023-06276-x.

 

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Equipe A Gazeta Tresbarrense
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