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Eventos traumáticos e processos de traumazatização

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O psiquismo dos seres humanos é constituído também pelas experiências vivenciadas ao longo da sua existência. Algumas dessas experiências podem se configurar como eventos traumáticos que geram processos de traumatização.

 

 

Dessa forma, o trauma é um evento e a traumatização é a experiência de um evento onde o corpo não foi capaz de processar o que aconteceu, ocorrendo assim uma interrupção de um fluxo natural do funcionamento do organismo.

 

 

As experiências traumáticas são determinadas pela percepção daquele que a vivencia. Assim, é essa percepção que irá determinar se um evento será para aquela pessoa geradora de processos de traumatizações ou não. Será indicativo que o evento foi registrado como um evento traumático na forma como essa experiência acaba refletindo no funcionamento de um indivíduo: na vida, nas suas escolhas, na maneira de se perceber e de perceber o mundo a sua volta.

 

 

Como o processo de traumatização tem origem na forma como um evento foi percebido, isso significa que, ter vivido um trauma (passar por um evento/vivência), não significa que tenha-se gerado um processo de traumatização e, de forma inversa, o fato de não ter vivenciado um evento (trauma), não significa que uma pessoa não tenha traumatizações.

 

 

Sobre isso, o psiquiatra Antonio Egídio Nardi, citato na reportagem de Rocha (2021), explica que, cerca de 25% das pessoas que vivenciam ou presenciam um evento traumático desenvolvem transtornos relacionados aos traumas como o TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático).

 

 

A compreensão da diferença entre trauma e traumatização é importante para o desenvolvimento eficaz de um trabalho terapêutico na clínica, como esclarece Ribeiro (2021), a autora acrescenta que o entendimento do trauma nos últimos quinze anos vem da compreensão da experiência psicofísica do trauma e que o processo terapêutico é focado na experiência do evento traumático, ou seja, no processo de traumatização.

 

 

No processo de traumatização, Ribeiro (2021) explica que a pessoa vivencia um evento na qual foi surpreendida e que causa algum tipo de ativação emocional que naquele momento não havia, no organismo, estratégias imediatas para lidar com o que aconteceu.

 

 

Este evento é percebido pelo sistema nervoso como um sinal de alerta que dispara respostas de estresse – hormônios como adrenalina, noradrenalina e, em um segundo momento, cortisol -, para o organismo responder no menor tempo possível à situação desafiadora (RIBEIRO, 2021).

 

 

 

Quando o cérebro não recebe a informação de que estamos novamente em segurança, de que o perigo passou, o sistema continua a sustentar as respostas de estresse e a pessoa passa a responder a partir de um sistema de alerta alterado onde o trauma (evento) se transforma em traumatização (forma pela qual o organismo responde ao evento) (RIBEIRO, 2021).

 

 

No processo de traumatização, de acordo com Ribeiro (2021), a carga nervosa da experiência traumática não foi completamente liberada continuando a produzir resposta de estresse, mesmo depois do evento traumático. Esse processo contínuo de resposta de estresse leva o organismo à exaustão e a pessoa começa a apresentar sintomas como hipervigilância, dissociação, reatividade, dependência e codependência emocional dentre outros comportamentos relacionados ao trauma.

 

 

 

Assim, o trauma é a experiência que acontece no corpo, na mente e no cérebro da pessoa durante o encontro com a situação desafiadora. Já a traumatização é a organização de sintomas ou padrões de comportamento e relacionamento resultantes da não liberação da carga residual do estresse e da revivência interna da experiência de dor e desamparo conforme clarifica Ribeiro (2021).

 

 

Levine, Frederick (1999, p. 29) explicam esta situação da seguinte forma:

 

Os sintomas traumáticos não são causados pelo acontecimento desencadeador em si mesmo. Eles vêm do resíduo congelado de energia que não foi resolvido e descarregado; esse resíduo permanece preso no sistema nervoso onde pode causar danos a nosso corpo e espírito. Os sintomas a longo prazo, alarmantes, debilitantes e frequentemente bizarros do DSPT[1] se desenvolvem quando não podemos completar o processo de entrar, atravessar e sair da “imobilidade” ou do estado de “congelamento”. Contudo, podemos descongelar ao iniciar e incentivar nosso impulso inato para retomar a um estado de equilíbrio dinâmico.

 

 

 

Existem muitos desfechos possíveis para os processos de traumatização, uma delas é o crescimento pós-traumático. Ou seja, as nossas dores podem ser transformadas em potenciais recursos de crescimento e desenvolvimento. Para que isso possa ser possível, é necessário entrar em contato com a experiência, de forma terapêutica. É necessário entrar em contato com a experiência para senti-la, processá-la, elaborá-la e liberá-la.

 

 

 

É através desse trabalho terapêutico que conseguimos integrar e autorregular o nosso organismo, sendo mais resilientes ao passo que nossas dores vão se tornando potenciais recursos criativos.

 

 

Referências:

 

LEVINE, Peter A. FREDERICH, Ann. O Despertar do Tigre: Curando o trauma. 4 ed. Summus Editora. São Paulo, 1993

 

RIBEIRO, Ediane. Trauma x traumatização em uma visão trauma-informed. Disponível em: https://www.edianeribeiro.com.br/trauma-x-traumatizacao-em-uma-visao-trauma-informed/ 2021. Acesso em: 28 julh. 2022

 

ROCHA, Lucas. Saiba como o 11 de Setembro mudou a forma de tratar pacientes com traumas. CNN Brasil. 2021. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/saiba-como-o-11-de-setembro-mudou-a-forma-de-tratar-pacientes-com-traumas/ Acesso em: 28 julh. 2022

 

 

Autora:

 

Príncela Santana da Cruz – Docente do Curso de Psicologia da UnC – Campus Canoinhas e Psicóloga Clínica. CRP: 08/22273 – 12/18930. E-mail: princela@unc.br

 

[1] Distúrbio de Estresse Pós-Traumático (em nota de Levine, Frederick (1999)).

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